A entrevista
Você é uma pessoa boa? Você é uma pessoa justa? Todos os entrevistados, pedestres caminhando no centro de São Paulo, respondem a mesma resposta, sem pestanejar, Sim. Já quando solicitados a apresentar uma definição para bondade e para justiça, a uniformidade das respostas está no constrangimento, na enrolação, na incapacidade de encontrar uma forma coerente para caracterizar o que de fato faz com que uma pessoa seja considerada boa, ou justa. Sócrates tinha a convicção de que esse exercício de autocrítica libertaria nossa mente da pior prisão, a falsa opinião, conclui a apresentadora. Corta para a fala do filósofo Oswaldo Giacoia, A ironia consistia justamente nesse movimento de afastamento das convicções irrefletidamente assumidas, com o objetivo de revelar precisamente a irreflexão, ou seja, a aparência de um saber que, na verdade, ignorava a sua falta de fundamentação. Assisti isso recentemente, num vídeo sobre cultura e filosofia, e sua lembrança me ocorreu ao receber a notícia de que havia uma polêmica envolvendo uma professora de literatura da USP, a partir de uma entrevista sua para o jornal Folha de São Paulo. A discussão chegou até mim na forma de uma publicação no Instagram, compartilhada num grupo de Whatsapp sobre literatura, onde o assunto borbulhava. Na foto, uma senhora bastante idosa olha para a câmera, um leve sorriso nos lábios, sentada em frente a uma parede de livros. Aurora Fornoni Bernardini, professora aposentada, tradutora renomada de italiano, inglês e russo, diz a legenda da divulgação feita pelo jornal. Sobre a área mais sombria da porção inferior, a frase geradora do tumulto, Itamar, Ernaux e Ferrante são interessantes, mas não literatura. Quero ler a entrevista completa. Tento acessar o texto, mas não consigo. Conteúdo exclusivo para assinantes. Na minha busca, vejo que já existem vídeos no Youtube discutindo o caso. Escolho um ao acaso mas não consigo permanecer assistindo por muito tempo, numa mistura de vergonha alheia com ânsia de vômito, ao acompanhar a fala crítica da youtuber literária. A desgraça da curiosidade me faz voltar ao Instagram para ler os comentários na publicação do jornal, certo de que não seria uma boa ideia. E de fato não foi. Mas foi aí que me veio a lembrança do filósofo e de seu comentário sobre os saberes infundamentados. Como não poderia ser diferente, uma chuva de caracteres raivosos enxovalham a honra da professora Aurora nos comentários. Eu nunca tinha ouvido falar dela, não conheço seu passado, seu trabalho, seu caráter, seu carisma, mas sinto um cheiro estranho no ar. Cheiro de pessoas que se julgam boas, pessoas que se julgam justas, cometendo uma injustiça. Assim como eu, tenho certeza de que a multidão ruidosa e raivosa também não leu a entrevista completa, onde Aurora aparentemente descarta da categoria de arte literária autores muito queridos por seus leitores contemporâneos, grupo do qual, aliás, faço parte tanto quanto leitor quanto como admirador, e proferem seus insultos a partir da isca jogada pela Folha. Mas, como já nos advertiu Sócrates, penso aqui no filósofo grego mas poderia estar pensando no jogador de futebol, tanto faz, a falsa opinião, as convicções irrefletidamente assumidas não são fenômenos recentes na história da humanidade. Muitas coisas me afligem neste episódio. A arapuca armada pelo jornal para gerar atenção, gerar engajamento, gerar novos assinantes, em última instância gerar dinheiro a partir de uma confusão intencionalmente montada, colocando em risco, de forma leviana, a reputação de uma vida inteira de trabalho dedicado ao ensino e à literatura, talvez seja o meu maior incômodo, de mãos dadas com a falta de cuidado no trato com uma senhora que poderia ser avó de todo mundo ali, revelando a crueldade de mais um sintoma patológico do nosso estado civilizatório, no desprezo a tudo aquilo que não é novo, ao que não pertence à última geração, disfarçado na desefa de pautas que atualmente são mais propensas a causar alguma espécie de afetação. A confusão me remete a um comentário que li outro dia, escrito pelo teólogo francês Jean-Yves Leloup, a respeito de uma outra versão de fundamentalismo, ao se referir a uma outra espécie de discurso dogmático. Deus não existe, Ele é. Se Deus existisse, como tudo aquilo que existe, um dia ele teria que deixar de existir. Dessa maneira, todos os deuses, investidos pelas nossas adorações cegas da existência, são ídolos. O verdadeiro Deus não existe e toda apropriação do “verdadeiro” é uma fábrica de ídolos por vezes mortíferos e perigosos. “Meu” Deus não é “teu” Deus, e em nome desse Deus que “temos”, todos os crimes são permitidos.


Depende, o que é ser uma boa pessoa para você?